Quando a Fronteira Engarrafa, a Criatividade Precisa Passar na Frente

Crônica por Nilso Raffagnin – Pensador de Cidades

Uma crônica crítica e bem-humorada sobre mobilidade, fronteiras e integração trinacional. Como a criatividade urbana pode acelerar o MERCOSUL.

Parcerias público-privadas, mobilidade e uma velha pergunta: por que complicar o que pode ser integrado?

Ponte da Amizade | Foto: Gazeta do Povo

Há dias em que atravessar a fronteira parece mais difícil do que atravessar uma ideia nova. Filas longas, buzinas impacientes, relógios andando mais rápido do que deveriam. E, no fundo de tudo, uma constatação simples — não falta vontade de integrar, falta gente para operar o sistema.

Não é segredo para ninguém que a escassez de funcionários públicos federais, especialmente do lado brasileiro, já foi decisiva para que a segunda ponte entre Presidente Franco e Foz do Iguaçu nascesse com vocação limitada: caminhões entram, cidades respiram menos. Não foi birra, foi matemática administrativa. Sem gente, não tem controle. Sem controle, trava tudo.

Mas cidades — e fronteiras — não gostam de ficar paradas.

Foi observando esse engarrafamento crônico de ideias e veículos que, junto com a arquiteta Mariam Damen, começamos a defender algo que parece ousado apenas porque ainda não foi tentado com seriedade: uma Parceria Público-Privada Trinacional entre Argentina, Brasil e Paraguai. Nada revolucionário no mundo. Apenas novidade por aqui.

O Iguassu Aguas Grandes, apresentado à comunidade desde 1988 (sim, ideias boas envelhecem melhor que discursos), volta agora ao centro da conversa justamente por atacar o problema onde ele realmente está: na forma como organizamos fluxos, não apenas pessoas.


Menos filas, mais cidade

A proposta é simples no conceito e ambiciosa na escala.
Se o trânsito pesado não combina com centro urbano, por que insistimos nisso?

Um Anel Viário Metropolitano Trinacional, com caráter rodoferroviário, desviaria os caminhões para fora das áreas urbanas. Os controles — sempre sob supervisão dos órgãos públicos — aconteceriam onde faz sentido: nas saídas estratégicas do sistema, a exemplo das EADIs (Estações Aduaneiras do Interior).

Resultado?
Pontes liberadas. Cidades respirando. Pessoas circulando.

Não é mágica. É urbanismo.


E se cruzar a fronteira fosse… agradável?

Agora, sejamos honestos: fronteira também é encontro.
E encontro merece mais do que cancela e carimbo.

O Teleférico Trinacional surge exatamente como esse símbolo. Não para substituir pontes, mas para redefinir experiências. Ligar Argentina, Brasil e Paraguai por via aérea, dentro de um Parque Turístico Trinacional, é permitir que moradores e visitantes vivam algo raro: estar em três países ao mesmo tempo, sem pressa e sem estresse.

Ali, onde hoje vemos limites, podemos criar um verdadeiro Central Park Trinacional — com espaços para cultura, feiras internacionais, festivais, esportes, museus a céu aberto e trilhas que ensinam geografia melhor do que qualquer sala de aula.


Geografia ao vivo (sem prova no final)

Poucas experiências seriam tão didáticas — e emocionantes — quanto observar, do alto, o Encontro das Águas Grandes dos rios Iguaçu e Paraná. Dois rios monumentais, três países, uma aula prática sobre integração.

Ali estão Itaipu, uma das sete maravilhas da engenharia mundial. Ali estão as Cataratas, Patrimônio Natural da Humanidade. E ali, paradoxalmente, ainda insistimos em soluções pequenas para problemas grandes.


Acelerando o MERCOSUL com menos discurso e mais projeto

Quando encaminhamos essa proposta aos governos dos três países, durante a atual presidência brasileira do MERCOSUL, fizemos questão de deixar algo claro: não se trata de substituir o Estado, mas de ajudá-lo a funcionar melhor.

Se alguém apresentar uma solução mais eficiente, mais integrada e mais humana, que o faça. As cidades agradecem. Nós, arquitetos e urbanistas, sabemos que criatividade urbana não é vaidade — é necessidade.

No fim das contas, acelerar o MERCOSUL talvez não seja correr mais.
Talvez seja parar de travar.